Era isto, Ondina, espios de dentro, como é que tu e teu sono flutuam nas águas se é de matéria aquosa tua intuição que auscultas, é importante que te lembres apesar da dispersão que guia teu corpo, teu corpo que chega sem vir quando cochila indica um caminho que não fala quietude, teu sorriso de adormecida revela a tua cara que súbito chega às belezas das tensões cotidianas. Lembra, Ondina, que este é teu corpo ainda que não saibas o que fazer dele, ele substância de guerra, lâmina enterrada, ele alabarda, flecha, ele peixe, ele que dá a cada gota sua porção exata de mergulho, faz chazinho de quebra pedra, listas de esquecimentos, desaparece eufórico assim: orando ao Deus, louvada seja a tua miséria, a boquinha de cu pronunciando iridescentes, ela que suspeita, que adivinha, que quando adivinha devora e que quando devora pressente atenta a elevação das marés, era isto: forçuda cintilância, querer OUTRO, mais matéria de palavra, matéria de condenação evanescente, observa aqui este ponto em que a língua articula vestíbulo, passagens nos ocos do verbo é que surge um Outro, agora mesmo mergulha de cabeça e afunda até o tórax, é grande e escuríssima a cisterna, escuto os rumores de fora entre pingos d’água e líquens. Ondina, fala teus trajetos, teus lugares de ficar, de como é bonito e insano teu corpo sempre encharcado e salino aderindo à poeira fina das ruas, perguntando o que é uma cidade?, ultrapassando dois três cruzamentos de ruas fundas, fuligem e osso desconfias, ourinhos brilhando no café americano.

É que penso nas dobras do tempo, esse de abotoaduras, de apertos nos punhos e adivinhações precisas, adivinho matematicamente, faço noções desde pequeníssima, tenho jeitos de saber distraída: adivinhava o número de peixes no aquário plantado, via os ocultos porque supunha nados no abstrato, precisava não vistos com rigor de andarilho, dava-me com os limites, uma finitude era que me excedia. Sei o tempo exato que estou nesta sala, sou natural do osso de Ishango, mas oculto quartzo, a riqueza que só alcanço escondida. Penso na fíbula, uns pesos sobre ela de resistência corajosa, resisto fibular, existe um Outro que me assiste ou que minha boca profere, que calculo silenciosa, tracejo nas paredes porque nomeio casa o que sei de retornos – o meu regresso sempre às beiras, uma atividade de equilíbrio, a levitação e sua graça no espaço, coreografia plena suspense.

Comigo a precipitação foi esquadrinhar a ponto de ser feminil, não movida por alguma espécie de intuição, mas pela precisão, os passos que me levavam junto à casa, essa que incorre em me abrigar enquanto caminho. Eu que não passo, que reincido e que abandono, que calculo sobretudo o que não vejo, que coreografo rente ao chão quando esqueço os palíndromos, a palavra asa por exemplo, essa que maneja voo em direções distintas, que decola, que coincide, espelha-se sem licenças sem pedidos e sem espelhos. Eu queria uma escuridão de nuvem, pesar fazendo sombra longe no chão, ter um movimento de lesma lá nos altos, na boca um Absoluto rastejando mais perto e mais largo. Coisas de proximidade desandando olhar mais esticado, espraiando-se nuns crescidos vistos de perto, as pupilas do Absoluto brincando de aumentar e diminuir no fundo de uma bacia rachada, Outro na antessala meio escura de colocar ecos nela, seu silêncio a gravidade das costas de uma pintura numa sala de museu tão visitada, esteja a senhora atrás da linha amarela que nós não vamos incomodá-la, esteja eu sem querer ver o dorso das Coisas cujo dorso não importa e ficarei sossegada, pequeníssima prezava pelos ocultados, não é fantástico uma pintura aclamada de frente ter uns costados? Abria os brinquedos de fala para de repente sacar os mecanismos, cordas vocais de nylon, aproximo e distancio o rosto da bacia tomada pelo mesmo princípio, ir e vir abrindo o olho do Eu Sou numa prosperidade de águas rasas que estanco com uma das mãos. Eu destroço. O resto é minha ferramenta de brincadeira.

Taí, O QUE É? Aquele que. Aproximo e distancio. Retorno, talvez dúbia, o retorno que é este e que são todos, que possui uma língua, que entrevê nas reincidências, poucas coisas me pertencem, mas com elas o travo é um contato de musgo, uma língua que roce uma palavra que não possa. Selvática. Ouviu? Comunico-me pelo sistema numérico hindu-arábico que significa criação a partir do rearranjo de dez dígitos e permite somar dividir multiplicar diminuir ou só reordenar os números que são letras, mas que se contam porque a tudo se põe número que exista, sem que eles porque existem façam conta de tudo que numeram. Crio valores a esmo, qualquer ordem desenha um sentido, estou 389 anos trópicos no agora, comunico assim: eu, que sou numérica, só escreveria apócrifos, uns nascidos do contestável e da exumação do espírito. O QUE É, ouve, a bacia rasa, que haveres são os do teu silêncio? Grilhão e resto é uma só ferramenta de brincadeira a seu tempo. Que posso se Tudo fazes perguntas? Cedo ouvi sobre o comandante, travas de segurança antiterrorismo, há um terrorismo de dentro que não sabemos, qualquer coisa da teoria dos conjuntos, existires em conjunto, aos pares por cima e por baixo, há saberes da tecnologia impartível, que pode ser? Aquele que. Ouve. Que haveres são os teus? Que boca dizer não digo? E de qual momento de teu silêncio obter comandos? Que porta intransponível combater nas estruturas? Que escândalo calar que se vive? Espera de qual ordem paraí nós estarmos no comando? A caixa preta ultrapassando o Atlântico, quem sabe aí o Absoluto esteja, o Atlântico de funduras no nome, Aquele que, remexendo os óculos antiterrorismo, tua visão sempre apaixonada pelo que não vês, aclarado mistério que avanço e que abandono, reincidente evasiva, pequena Mata Hari à espreita, há uma Esperteza, Absoluto? Uma escrita que não seja a da doença. Que vês de dar vazão? Uma escritora, sem que se fechem as comportas?

Isto sim é que deverias, Ondina: menos aborrecimento, escreve aí umas coisas que te sequem as verrugas da bunda, algo que a gente leia enquanto se balança de rede sem franzir a testa, desopila de palíndromos (como asa), também palavras como Encruecer, Regato e Espalhafato, manda passear a matéria viva tua intensidade, a matéria viva metalinguagem, adquire uma causa, a grande causa, a causa terrena que teu nome não alcança, nome espelho d’água, bico de peixe mirrado, os dois olhinhos marejantes. Adivinha os caralhudos no supermercado, colhões de pêssegos em calda. Larga Aquele que e essa cara recorrente de espantos.

Dizeres rotundos, as pegadas de desvio diluvianas, um pouco de assombro no entre da boca, digo ao Outro que a minha linguagem só vai torta, uma barata pensa, ele escuta a si mesmo e ri, me diz da linguagem e seus joguetes, esse horizonte que se chego até ele torna-se outro é a boca do Outro com suas linhas de fala, alcanço-a e saltam os impercorridos. Mais adiante vejo as costas do Inquisidor, o dorso da pica grossa fazendo pingar esparso entre as pernas, sei que se trata do Inquisidor e saber assemelha-se ao sonho, careço um sono muito antigo, ele não me olha mas questiona Contabilista, espiã arregalada, estrondosa não lida escritora, profeta inescrupulosa, nadadora com triângulo equilátero eixo ombros-teumbigo, escafandrista fatal? Amarra o torniquete aí na tua prosa antes que seja tarde demais, larga a bisnaguinha torta entre as pernas de Deus em troca de uns esporros murchos, automatiza a tua boca, as dentadas que dás nos polpudos das frutas, antepara isto de ser tomada, esquece o piquete junto ao lado de dentro de todas as portas do mundo até que pareça um incidente tua estada.

Ouço as roeduras sobre o tempo, esse toldo de números e aperto nos punhos – sou mulher matematicamente, sem abrigo em todo verbo. Outro me diz que não importa o tamanho da mala, ela sempre será pequena demais. Outro calcula o que não vê, mas sua existência atrita, revela uma estiagem que não conheço, produz arranhões que não são de quartzos, esmeraldas, safiras, aquamarines Dom Pedro, cilício. Escuto as roeduras. Outro me fala de um tempo que é inteiro decorrências.  Grunhidos. Creio em ratos sobre o toldo numa tarefa incansável e eterna. Outro bendiz os meus apócrifos, diz que não fossem eles e eu sairia completamente insana e nua a correr pelas ruas. Não estou furiosa, consciente de que escrevo o que mais sei é que não alcanço, nadadora notável asfixiada submersa pelas águas. Adivinho a sombra rala do Outro, sua materialidade plena, seu corpo inteiramente plano, que não se curva, talvez ele esteja dentro ou um pouco de fora, é certo que me excede e que nasce a modelo de hérnia, as rótulas coladas às minhas, eu que me curvo para medirmos o mesmo tamanho, que curvo ainda mais um pouco quando vejo turvos no seu rosto e faço constatações noturnas enquanto a cidade é inteira espanto e amanhece.

Estios formulando a grande estratégia, pequenas maravilhas de Mata Hari, estou a segundos do último charme, este é o agora, espionagem da grossa, os emissários e seus veículos dentro da boca nascem excelentes condutores. Há de se arregalar os buracos para os haveres d’Aquele que. Fica curiosinha demais e aí vem o Inquisidor de imenso bedelho pentelhudo dizendo Isso de asa não é bem certo nem as pedras preciosas e os apócrifos porosos, espíritos exumados enquanto o lado de cá caminha a explosivos, e a consternação da carne onde é que está? A que tem o peso da História e não dos teus alheios cegos?! A arte e seus ardis, sua movência burguesa de caramujo, sua intervenção de molusco, seu suprassumo da individualidade,

Relinchos sobre o mover-se, rastejo espiralada, o caramujo muito bem empregado por ele sempre admirável, Outro colado a mim, Outro que carrego e que resido faz um desenho na minha língua, grita na minha boca, é que retorço os ofícios por natureza, de onde é que parece que falo? Não é de um estar no mundo? Invadi este labirinto porque não havia outro sítio. É grande e escuríssima a cisterna, homens de negócios eternos, vibrosos com a língua espapaçada de fora, ó Outro que arroto-choco, riquezas pra alcançar escondida, nenhum dom de ser explícita, para fala de palanques, tudo Ilustríssimo, as escarraduras esguichando pelo sempre admirável, por todos os buracos ele e sua imponência na disputa – não importa o esmero empenhado nas estruturas e as palavras despencam, caralhos meneiam voos, órbita dos mísseis insuspeitada nas asas, aterrissagens afoitas, sempre de cabeça é que vem o calhamaço, e não avisa, o povo bem embaixo.

Outro é um reordenado, numeriquíssimo. Não adivinha porque é ele o adivinhado. Outro é o grande calculado. Cálculo do Absoluto. Mas enquanto adivinhado carece de não se saber. Moteja com as possibilidades. Fosse ele no aquário plantado Ondina não adivinharia quens. Outro não tem propriedades de coisas que se possam saber. E o outro do Outro é ele mesmo. No ponto de chegada, o mesmo segredo. Ondina enxerga o surgimento do Outro com vagueza – ou ele foi proferido para lhes surgir depois ou antes de ser dito já era aquele que observava ou a medida em que foi sendo proferido é que foi se desenhando em silhueta observações e nadas. Palavras. Coladas à boca do Absoluto. E Ondina arrisca, Outro veio da oquidão de presença e do antônimo de palavra. Sim. Silêncio não cabe neste antônimo porque como não nomear a ausência total? Então, o antônimo de palavra. Isso que não sei o que é. Que é outra coisa e que é do Outro. Eu disse antônimo? Também colisivo me passou pela cabeça. Colisivo de palavra. Sinônimos ou antônimos permanece o mesmo pandemônio. Outro: um cálculo do Absoluto revirando os oclinhos, vendo e não vendo, amando aquilo que entrevê, querendo nos dar meios de, ao mesmo tempo que tomado pelo terrorismo por dentro, aquele que não sabemos, mas que arremessa uma tripulação inteira contra os Alpes. Sibilante. Pois, do Outro o que não sabemos é o resultado, um saber em curso no tempo que o habita, Ondina estava nuns átimos, talvez nuns acréscimos, sendo esta para ser outras, mas seja qual for o tamanho da mala ela será pequena – então que eu carregue o menos possível enquanto percorro lugares que me são estranhos e fico perdida para compreender este itinerário, os passados e o que advém. Perder-se para lembrar, sempre, a partir do que se revela estranho. Nomear casa um estado de errância a que retorno, entortar a língua porque se há outro sítio os meus meios de adivinhá-lo foram escassos e depois grunhidos, os ratos devoram o tempo que decorre.

Vovó, meu cu

A velha me chama papisa, às vezes papisinha em baforada quente no meu cangote, os pelos em pé, me pondo para dormir um dedo lá dentro da minha pepeca, o dedo tremelicando como tremelicam os braços das mães ninando bebês, me guarnece porque é forma sutil de tocar o que tenho de mais fundo e de intocável para mim, é por esse dedo que vivo e que sempre vivi, chupeta minha sempre foi a de menina criada pela avó, mamilo escuríssimo grudado na carne murcha adentrando-me a boca, meu nariz rente à pele abrindo baús esquecidos em oceanos e mausoléus, cheirando uma época remota de alfazema e melaço, aquele cheiro o cheiro pertencente a algo maior, ao código secreto dos velhos que se abre diante de meus olhos com seus cheiros de murtas flores do campo lavanda alecrim talco leite de rosas polvilho podre, depois ao diminuto segredo daquela velha em si, daquela velha eleita que era minha em resposta a eu ser, por descuido de uma geração, filhote dela mordendo-lhe o bico de sua carne disforme e abatida da qual não desponta seiva, somente minha fome alargando-se aos jorros.

Vovó ordenava todos os dias como que para eu não esquecer de jeito nenhum, para eu chamá-la sempre que largasse meu cocô no fundo da privada, depois dizia pela rua que a menina velha ainda não sabia se limpar sozinha. Aí eu chamava, vovó vinha arrastando os chinelos – sobretudo por essa ser a única maneira que ela tinha de caminhar – empurrava a porta do banheiro, me mandava levantar da privada e ficava lá, não sei quantos minutos observando o meu cocô, na sua cara uma ternura de quem analisava neta recém-parida ou de quem acabava de saciar a fome com um prato que há muito despertava a sua curiosidade. Às vezes eu precisava lembrar a vovó de que eu existia ali, de pé ao seu lado, com a calcinha arriada e o cu sujo, ela acordava de supetão e me corrigia muito brava, dizia que cu não era para eu dizer, que era pra eu dizer rodela, eu dizia rodela, ela me pegava pelos braços, me sentava de volta na privada – as minhas perninhas balançando – com a rodela bem arrebitada e ficava passando o papel por ela, enfiando de leve o papel na minha rodelinha, dizendo que eu era a menina da rodela mais suja da rua, a menina mais porca e suja tão lá no fundo que era difícil de limpar, aí ela enfiava mais o dedo com o papel e eu sentia como se estivesse saindo de novo cocô pela minha rodela, mas era só sei lá quantos dedos de vovó com papel em volta. Ou então ela só socava o dedo mesmo com cuspe para ver se assim essa menina imunda de encher qualquer rato de nojo conseguia ficar limpa. Vovó ficava tão brava comigo.

Aí chegou o dia. O dia do entupimento da privada, vovó disse hoje você não vai fazer cocô na casinha, me colocou com as quatro patas no chão e disse agora faça, deitada com aquela barrigona para cima entre as minhas pernas, a boca aberta, a minha rodela meio tímida, o coração dando uns saltinhos maiores que era a forma de o meu coração ser quando eu ficava feliz e assustada ao mesmo tempo, como quando passei a mão por aquele cachorro enorme da vizinha e ele fez uma cara bem bonitinha mesmo com aqueles dentões, o cocô começou a sair todo em bolotinhas, vovó com aquela cara gorda e rosada com a boca mais aberta do mundo, umas bolotinhas caíam direto na boca dela, outras acertavam o nariz ou o seu queixo, ela ficava doida mexendo o rosto com a língua de fora sem querer perder nenhuma bolotinha, mexia e mexia a cabeça, parecia eu jogando pitomba para cima e tentando pegar com a boca na descida, ela ficava assim com essa cara gorda mexendo e mastigando e dizendo que eu era uma cabrita, que eu era uma maldita, uma cabrita e também porca e também suja e que eu merecia apanhar muito e pedir e pedir perdão a Jesus por ser tão imunda e fazer aquele cocô de cabrito, meu coração aos saltinhos maiores e maiores, eu olhando a papada de vovó por baixo do meu corpo e feliz porque a papada era engraçada e assustada porque eu era suja cabrita porca imunda e porque Jesus poderia não me perdoar nunca. Chegou uma hora que o meu cocô acabou, ela ficou nervosa mastigando e pegando nas mãos e enfiando pela sua bocona as bolotinhas que haviam caído pros lados, segurou as minhas duas pernas, levantou a cabeça com esforço e deu uma lambida cheia no meu cu, deu cosquinha boa, aí eu disse rindo e sem nem pensar ai meu cu, ela colocou a língua de volta para dentro da bocona muito rápido, parecendo máquina de bilhete de estacionamento, disse rodela e não cu sua porca papisa Joana sua endemoniada sua podre sua cara de esgoto e me deu duas tapas bem grandes, uma em cada lado da bunda, que encheram os meus olhos de lágrimas.

Depois era domingo cedinho, vovó me vestiu bem bonita com vestido de cambraia bordada, enfeitou meu cabelo com laço verde, lambeu a minha cara ainda laganhosa e saiu pela rua, mãos dadas comigo, eu um acessório dela, até a igreja Sagrado Coração de Jesus. Vovó dizia no meu ouvido peça a Jesus para purificar essa sua alma língua de gato vira-lata sempre que eu ia me confessar, e apertava o meu braço com força até ele ficar vermelho escondido debaixo da manguinha do meu vestido, eu dava uns passinhos até o confessionário e, olhando para a estrutura de madeira, supunha a cara magra com o nariz enorme do padre pendurado cheio de pelos saindo. Especialmente nesse dia segurei o riso ao imaginar a cara do padre assim e a expressão boboca que ia se formando na cara dele enquanto ouvia os pecados das gentes, porque cria que desse autocontrole dependia o perdão que Jesus iria me dar. Contei ao padre que era má com vovó, que eu a fazia fazer coisas ruins que ela não queria fazer, que eu lhe dava dor nos nervos, que eu era ladra de fruta de feira, que ao meu nome Joana cabia um papisa anteposto, porque eu era malvada e parecia a papisa montada naquela besta do apocalipse, mas por dentro eu ria daquela cara besta do padre com os pelos saindo de seu nariz enorme como se quisessem, os pelos e o nariz, invadir a sua boca, e por dentro também eu pensava em como havia acordado de um jeito gostoso, sentindo o meu dedão do pé enfiado num buraco que era a rodela de vovó, em como fingi dormir pela manha boa que era estar adormecida com o dedo lá dentro. Pensava em como vovó sentou de vez sobre o meu pé, que doía esmagado pelo seu peso, em como ela ficava dizendo ui e ai e ficava soltando uns risinhos dizendo pare menina do capeta pare papisinha sua besta-fera seu projeto ruim de miúda ui ai e ui e você não presta menina você com essa sua mania feia de enfiar as suas coisas em todos os lugares que vê pela frente, por dentro eu pensando em como gostava de me fingir de dormida ou de morta enquanto vovó tinha meu dedo do pé ou da mão dentro da sua rodela ou da sua pepeca que às vezes engasgava seca, em como eu gostava de vovó sem dentadura no meio da madrugada dando lambidinhas na minha pepeca dizendo várias vezes xota, eu vou engolir essa xota inteira, dizendo na sua idade eu tinha a xotinha assim feito a tua, tão fresquinha e cheia d’águas, eu dormida ou morta querendo ela lambendo ali para sempre, eu que nem sequer respirava porque não queria que ela suspeitasse que aquilo era um corpo e que aquele corpo era vivo e que aquele corpo era meu, corpo de menina porca, eu queria era ser qualquer coisa como uma pedra ou não sei o quê mais lá, desde que ela ficasse ali me lambendo para sempre, babando a minha pepeca com aquela boca desdentada e sem sorriso mesmo quando sorrindo, desde que não houvesse qualquer pista deixada que era eu ali, que ela dormisse comigo no sentido de esquecer comigo que eu existia, porque naquela hora eu não precisava existir, não precisava nada que não fosse sentir aquela língua velha que andou o mundo inteirinho, que andou e parou na pica de vovô como param as bocas das mulheres nas picas dos homens que dormem com elas, isso eu já sabia, ria lá dentro por ter esse conhecimento, depois fazia em nome do pai do filho do espírito santo cinco vezes seguidas por saber, o padre respondia cinco ave marias e três pai nossos minha filha, não suspeitava que eu sabia sobre as picas mas que de perto só conhecia cona ou muito moça ou muito velha ou com levíssima penugem ou com a pentelhada inteira branca, eu rezava com juros eu rezava dez vinte ave marias cinco dez pai nossos para ver se o perdão vinha e se vinha depressa, para ver se o perdão caía sobre minha cabeça e me fazia, de repente, uma menina santa e recém-saída do banho, perdão-bálsamo aos borbotões, eu uma menina que não queria ter uma pepeca com uma cara engelhada dentro, menina que não desenhava no diário uma pepeca enorme, não por ela ser enorme de verdade, mas por quentura ser impossível de desenhar, com coisa escorrendo de dentro, uma coisa que era água só que mais melada, uma coisa que secretamente depois a menina passava no dedo e levava à boca imaginando que ela era a avó, que ela era então a rainha, a dona de tudo, a autoridade antiga da casa, a de quem um olhar bastava para reprovar, assentir ou fazer a menina abrir as pernas, a menina pôr as patas todas no chão, a menina estirar a língua e chegar perto, a menina estirar a perna com o dedão voltado para cima.

Papisa eu me fazia a cada dia, nas palavras de hoje aos poucos eu me tornava figura de veracidade questionável, vovó ralhava comigo, o braço erguido com a carne frouxa balançando, eu olhando aquele braço meditando aquele braço entendendo o que era um braço – vendo a hora a carne despregar ali mesmo e cair na minha cabeça – até a voz dela ficar lá longe, impossível de eu escutar entendendo, essa era minha cura, só aquele braço mole na vida, aquele braço que só sabia balançar ao menor sinal de movimento e que, por ser essa a sua única ciência, haveria de balançar para sempre como balançam os balanços dos parques, os pêndulos dos relógios, as cadeiras de balanço e as asas dos passarinhos através dos anos.

Depois as Erínias porque as Erínias chegaram naquele dia primeiro eu de cócoras no prato de sopa morna de cenoura, vovó deitada no chão da sala, o coquinho sempre arrumado começando a desmontar da sua cabeça, vovó lambendo a minha pepeca suja de sopa, eu só grunhindo fechei os olhos, depois senti o dedinho entrando na minha pepeca com sopa e tudo, abri os olhos um pouquinho só, ela disse que estava procurando qualquer coisa que não sei se não escutei o nome ou se só não sabia o que significava aquele nome, não pedi repetição porque queria mesmo que ela procurasse naquelas procuras em que não se acha a coisa tão cedo, ela dizia estou procurando com uma cara iluminada, cara de gente bem boazinha de avó que preparou sopa morna para a netinha, aquele dedo entrando com mais força na minha pepeca, abri a boca bem muito como se estivesse comendo porque eu me sentia como se estivesse comendo, mas comendo querendo comer e gritar ao mesmo tempo, aí eu dei um gritinho, rapidíssimo surgiu um segundo e um terceiro dedo e ela me escavacava, aqueles três dedos gordinhos para frente e para trás de modo que eu queria comer e gritar e ser comida –  ter a linguinha da minha pepeca dentro da boca dela, mas então doeu e eu dei um daqueles gritos que eu dava quando acordava de um pesadelo em que vovó morria com os dois olhos grelados em mim, olhei então para baixo, eu procurava a cara boazinha de vovó como consolo de que eu não precisava me preocupar porque ela cuidaria de mim enquanto eu fosse menina e eu seria continuamente menina então vovó cuidaria de mim para sempre, o prato dentro laranja com uma pocinha vermelha também dentro, o coque de vovó desmontado e partes dos seus cabelos caindo dentro da sopa, a cara dela foi se aproximando, ela enfiou a cara inteira até o fundo do prato, lambeu tudo lá de dentro como se  não comesse há dois ou três dias, uma gata velha com o focinho inteiro dentro da tigela de leite que lhe deram por comiseração, lambeu e lambeu até limpar o prato, levantou a cara toda suja de sopa e de poça e se enfiou inteira entre as minhas pernas, não caí para trás porque ela passou os braços em volta da minha bunda, eu sentia as linguadas enormes na minha pepeca, ela ficou lá uns instantinhos, mas eu não sentia aquela cosquinha boa porque a dor era muito recente para que eu a tivesse esquecido. Depois vovó me pediu ajuda para levantar, entre murmúrios que falavam de Erínias de crimes de sangue de vingança e de coisas que eu não entendia de coisas que eu alargava bem os ouvidos, depois repetia as coisas comigo mesma para guardá-las direito na cabeça, a boquinha abrindo e fechando em articulações silenciosas para pensá-las mais tarde, para pesquisá-las e entendê-las também mais tarde, porque o conhecimento era desde cedo o meu intento e a minha crucificação, vovó dizendo esta casa é o Tártaro, as Erínias nascidas daquela poça na sopa, daquela poça que eu sequei não por gula não por cobiça não por luxúria mas por querer salvar a casa, salvar a peste de sê-la, devolver a ela o seu cabaço, depois Alecto vem me perturbar o sono sob ameaça do meu fogo mesmo em tochas, depois Tisífone vem murmurar no pé do meu ouvido meio surdo que o que cometi foi também assassinato, eu não escuto, Tisífone me atormenta o íntimo a ponto de eu ser internada como velha-louca, velha sem banho mais louca da região que levanta a saia para pessoa e besta e para a lápide do finado marido, sem perceber que ninguém, nem bloco de pedra, é obrigado a ver xota de velha, nessa hora uma peninha da pedra, o calor cedendo do vulcão extinto, aquele rompante de agarrar forte a menina contra o corpo durante a paz de Cristo, de naquele lugar mesmo enfiar a língua pela boca da menina até a língua chegar na garganta de enfiar a língua pela boca da menina até que a língua saísse pelo cu da menina lambendo existências lá de dentro, seus projetos de bosta, aquele cu manso e tímido tartaruga retraindo-se para o casco, aquele cuzinho que a menina mutum-do-cu-vermelho teria de chamar rodela rodelinha rodelusca para que cu cuzinho cuzusco fossem léxico-único de avó, palavras proferidas pela soberana.

A minha fome crescida comigo desde menina com as quermesses só minhas e dela, fome em crescimento ainda, fome com gigantismo, a santa padroeira ela, acendo as velas, os pés rastejantes dos chinelos e também das solas sozinhas gastas por anos de nudez eu pego e eu beijo eu pego e eu coloco dentro d’água para purificação reverente, limpamento de percursos, do enxugamento eu penso chance de oferenda capilar – com meus cabelos da cabeça dos sovacos da xota e do cu, mas há alarme clandestino quando toco as rachaduras que sobem até os calcanhares, é como se as várias boquitas dali fossem sugar a água inteira e me deixar com oferta vazia ao que de mais antigo eu não sabia se conhecia, mas ao que de mais antigo eu olhava e tocava sem que pensasse se precisava conhecer o todo, a única totalidade que eu via livre de compreensão porque me bastavam as partes isoladas, esquartejamento diário e guarnecimento sempre vieram antes, eram minha toca úmida que me permitiam dobramentos contorcionistas e natação uterina. A minha fome dilatando-se, minha fome anéis acrescentados e uns acrescentando-se, guizo edificando-se, chocalhar cada vez mais alto, o perigo o mesmo, porém o anúncio de destruição cada vez mais proporcional ao tamanho do próprio perigo, papisa e cascavel a espreita na prega-esquina, Joana quase não sou, a boca na ponta da carne massa de modelar murcha, tugúrio um improvável modelamento, mas sem esforço poderia amoldar com as mãos barraco nela se quisesse, mas o que quero é só dos bicos despontando nadas, a fome alargando-se porque sempre foi assim que vovó me alimentou.

E a mim, com fome, me vejo aniquilada.